Friday, March 09, 2007

Quem morre? -- Pablo Neruda

Morre lentamente
quem se transforma
em escravo do hábito,
repetindo todos os dias
os mesmos trajectos,
quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is"
em detrimento de
um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam
o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa
quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto
para ir atrás de um sonho,
quem não se permite
pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se
da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projecto
antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre
um assunto que desconhece
ou não responde quando
lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,

recordando sempre
que estar vivo exige
um esforço muito maior
que o simples fato de respirar.
Somente a perseverança
fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda

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